Para Talita Stael.
-
Sonho é destino.
Os preparativos haviam começado meses antes, cerca de 6 ou 7, não lembro bem. Seria uma van ou um ônibus, mas ela não sabia ao certo. Ainda pensou em tentar achar carona, pois em 1993 viajar entre estados diferentes era caro e os pais não podiam disponibilizar dinheiro pra certas regalias, além de estarem amarrados em aceitar a idéia. Era a mais velha, mas mesmo assim havia resistência. O suficiente era o necessário e vice-versa. Como não podia pagar pra ir, tinha de conseguir quem pagasse, seria o show da sua vida! Assim entendeu que poderia ela mesma organizar uma caravana. Até que começou-se a divulgação. A internet mal existia, então tinha de divulgar nas rádios e com cartazes nas universidades. Conseguiu um amigo para bolar os cartazes e este foi quem a ajudou a divulgar. Não tardou para aparecerem os primeiros interessados. Parecia até que era show do Orlando Silva e todo o fã-clube Sinatra Farney* estava querendo ir. As ligações pro telefone da casa estavam cada vez mais frequentes: o preço da caravana era bom e cada um tinha de se responsabilizar pelo seu ingresso. Houveram relatos de pessoas que viajaram só para comprar os ingressos. Então passaram-se os meses e os dias, e nunca um LP foi tão findado pela agulha de uma vitrola como aqueles que residiam à rua Raimundo Marques Por Deus. Uma semana antes do show estava tudo pronto: após algumas desistências, o veículo foi fechado com 15 pessoas, sendo 14 pagantes. A rádio local tinha feito um convênio com a Rádio Recife**, na qual 5 fãs poderiam conhecer os seus ídolos se participassem com depoimentos e crônicas relacionadas ao grupo. Após algumas perguntas respondidas na rádio, uma semana depois estava ela sendo entrevistada por um estagiário da assessoria de imprensa da empresa que estava produzindo o show. Contou suas estórias relacionadas à banda e como havia se tornado tão íntima daquele rock alternativo que misturava uns metais e algumas letras românticas ao som que produziam. Pode-se dizer que ela ajudou mesmo a mídia. Segundo disseram, essas informações sairiam num jornal local, que tratava exclusivamente de artistas, fofocas e afins. Acertou com a empresa caseira que fazia transportes e com a padaria do bairro pra que fizessem alguns salgados, como aqueles que costumava comprar com sua avó. Então a semana chegou. O show seria na sexta-feira, dia 15 de Outubro de 1993. E como dizem por aí que tem sempre um telefonema que muda sua vida, assim aconteceu. Na quinta ligaram à tardinha da empresa lá do Recife, procurando por ela. Deram um endereço e uma promessa de camisa-de-camarote-vip, e disseram ainda que às 23 horas ela deveria estar na escada que levava ao camarote, a fim de evitar um arrependimento pro resto da vida. 'Só pode ser pra conhecê-los!' pensou. Ao desligar o telefone, um desatino de alegria surgiu na mente e passou pro coração e pro rosto, fazendo com que aquele acelerasse e com que este colocasse um sorriso de orelha-a-orelha. Colocou o LP que mais gostava na bagagem. Tinha marcado de encontrar os viajantes num ponto turístico da cidade. Como de praxe, saíram atrasados. Antes disso ela ainda conseguiu rasgar a calça que vestia, mas nessas horas as atrasadas a salvaram levando uma calça de casa. Após o sorteio de dois LP's (brinde da caravana), partiram viagem. O motorista se chamava Sérgio. Foram salgados variados que todos comeram na parada em um dos postos de gasolina do trajeto. Uma das pessoas que estava na caravana era seu ex-namorado. Incrivelmente se deram bem, sem corações palpitando ou sem desconforto. Chegaram exatamente às 18hrs na cidade. Antes, claro, passaram pra pegar a camisa da sorte na base operacional da empresa produtora do evento. Seria um evento grande. Chegaram ao Centro de Convenções de Olinda às 19 horas. Foi uma longa espera. Às 22 horas se dirigiu à escada, ela era daquele tipo apressada. Não demorou até que o rapaz da agência a achasse e esboçasse um sorriso lindo quando a visse. Ali nasceu um olhar. Ela esperou só mais uns minutinhos até que chegasse sua pulseira de acesso ao camarote. Enquanto isso, um "DJ" sacudia a noite dos seus companheiros de viagem e dos cerca de dezoito mil fãs. 'Vocês vão conhecer ele, não saiam daqui!' Foi a frase mais bela que ela jamais ouvira em toda a sua vida. O plural se referia aos outros 4 fãs que ajudaram a assessoria de imprensa tanto quanto ela. Coração aos pulos, comeram alguns chocolates do buffet do camarote e partiram rumo ao camarim. Já havia se enturmado com dois rapazes do grupo de 5, sempre foi melhor amiga do sexo oposto. Passaram pelos seguranças, com sua devida permissão e percorreram um corredor semi-iluminado atrás do palco. Foi um dos únicos dias em que ela viu pessoas sorrirem verdadeiramente por 'quase nada' o tempo todo. No camarim, cheio de repórteres, a vida acontecia e o mundo girava. Ela os conheceu sim e teve até um romance com o assessor que a ajudou a tal feito. Mas o que aconteceu no camarim e durante o show fica a cargo da imaginação de cada um.
(ou das lembranças de quem esteve lá)
* Clube composto por integrantes da bossa nova nos anos 40
** Rádio fictícia
quinta-feira, 10 de março de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
dos grupos
Hoje eu quero filosofar, então trata de acomodar-te logo!
Vamos falar sobre grupos.
Tem sempre aquele lado da família que você gosta mais, que te faz sentir mais em casa, por mais que sua casa seja a casa de todos os tios e tias e primos e avós. Às pessoas desse grupo nós damos o direito de falarem das nossas vidas e se meterem quando quiserem, por mais que desejemos com toda a força do mundo facultar esse direito em alguns momentos. Nossos deveres para com eles são claros: agir com calma, não xingar nem falar palavrão. De todos os grupos da sua vida, provavelmente é o único que está sujeito a essa regrinha dos palavrões e que sempre o estará. E ainda que a regra seja violada, é o único caso em que você pede desculpas sinceras a alguém porque se arrependeu, e não porque é apenas mais uma convenção social.
Seguindo a linha, tem o grupo que você chama de 'grupo de amigos', seja no msn, orkut, facebook ou twitter. Mas aí temos uma diferença: os amigos são aquelas pessoas que a gente deixa fazer falta e não sente vontade de cobrar presença ou atenção. São exatamente aquelas pessoas que chegam, às vezes sorrateiros ou como ex-namorados, e ficam pra valer. Na vida, não acredito que consigamos mais que 5 verdadeiros amigos, é quase impossível!
No mesmo parâmetro das redes sociais, existem os amigos das redes sociais, que normalmente são colegas de classe ou de trabalho, que a convivência (às vezes fatídica) nos obriga a ter em nossas vidas. A grande maioria nem faz falta, serve só pra acompanhar suas conversas durante as aulas, completar o número de integrantes do seminário e ouvir seus infanticídios - adoro esse termo! - em horas de desespero nas quais os amigos não podem estar presentes.
Família? Sim, claro, mas nem sempre contamos tudo à família, não é?
Existem uns grupos que são pra sempre enquanto duram, grande maioria acontecendo em fins de ensino médio. Daí, na universidade, percebe-se que era tudo muito utópico e que aquelas pessoas quase não são vistas por você em sua nova rotina.
Existe também o grupo do passado. Aqui se enquadram os ex-namorados que temos raiva, colegas da turma de mil-novecentos-e-não-sei-quando e afins.
Nesse âmbito, haverá de lembrar daquelas pessoas que se enquadram num grupo distinto do que convém à sua rotina: o grupo dos que passaram mas que não foram. É como se tivessem feito uma prova de vestibular e tivessem sido reprovados: por isso não saíram do lugar (que você pode chamar de 'coração'). Aqui se enquadram as pessoas a quem você quer muito, muito, muito bem mas que, de alguma forma, falharam com você. Só que você sente vontade da presença alheia de novo, entende? E é a esse grupo que você dá o direito de voltar atrás quando quiser, nem que seja pra um abraço ou uma conversa rápida e boba; e é a esse grupo, também, que você se dá o dever de manter as portas e janelas abertas pra que voltem a habitar quando sentirem vontade. Só que dessa vez você deverá ter se dado o dever de abrigá-los da mesma forma - senão melhor - do que era antes, pra que não haja distinção. Dentre o grupo, tem sempre aquela(s) pessoa(s) que nem fazem falta enquanto não são lembradas mas, quando o são, parece que metade do tempo da Terra passou e que aquelas lembranças oram todos os dias pra que o futuro se ajeite e fique tudo em paz. Mas aí o futuro já é seu presente, porque já se passou muito tempo. Presente que você dá a si mesmo.
Vamos falar sobre grupos.
Tem sempre aquele lado da família que você gosta mais, que te faz sentir mais em casa, por mais que sua casa seja a casa de todos os tios e tias e primos e avós. Às pessoas desse grupo nós damos o direito de falarem das nossas vidas e se meterem quando quiserem, por mais que desejemos com toda a força do mundo facultar esse direito em alguns momentos. Nossos deveres para com eles são claros: agir com calma, não xingar nem falar palavrão. De todos os grupos da sua vida, provavelmente é o único que está sujeito a essa regrinha dos palavrões e que sempre o estará. E ainda que a regra seja violada, é o único caso em que você pede desculpas sinceras a alguém porque se arrependeu, e não porque é apenas mais uma convenção social.
Seguindo a linha, tem o grupo que você chama de 'grupo de amigos', seja no msn, orkut, facebook ou twitter. Mas aí temos uma diferença: os amigos são aquelas pessoas que a gente deixa fazer falta e não sente vontade de cobrar presença ou atenção. São exatamente aquelas pessoas que chegam, às vezes sorrateiros ou como ex-namorados, e ficam pra valer. Na vida, não acredito que consigamos mais que 5 verdadeiros amigos, é quase impossível!
No mesmo parâmetro das redes sociais, existem os amigos das redes sociais, que normalmente são colegas de classe ou de trabalho, que a convivência (às vezes fatídica) nos obriga a ter em nossas vidas. A grande maioria nem faz falta, serve só pra acompanhar suas conversas durante as aulas, completar o número de integrantes do seminário e ouvir seus infanticídios - adoro esse termo! - em horas de desespero nas quais os amigos não podem estar presentes.
Família? Sim, claro, mas nem sempre contamos tudo à família, não é?
Existem uns grupos que são pra sempre enquanto duram, grande maioria acontecendo em fins de ensino médio. Daí, na universidade, percebe-se que era tudo muito utópico e que aquelas pessoas quase não são vistas por você em sua nova rotina.
Existe também o grupo do passado. Aqui se enquadram os ex-namorados que temos raiva, colegas da turma de mil-novecentos-e-não-sei-quando e afins.
Nesse âmbito, haverá de lembrar daquelas pessoas que se enquadram num grupo distinto do que convém à sua rotina: o grupo dos que passaram mas que não foram. É como se tivessem feito uma prova de vestibular e tivessem sido reprovados: por isso não saíram do lugar (que você pode chamar de 'coração'). Aqui se enquadram as pessoas a quem você quer muito, muito, muito bem mas que, de alguma forma, falharam com você. Só que você sente vontade da presença alheia de novo, entende? E é a esse grupo que você dá o direito de voltar atrás quando quiser, nem que seja pra um abraço ou uma conversa rápida e boba; e é a esse grupo, também, que você se dá o dever de manter as portas e janelas abertas pra que voltem a habitar quando sentirem vontade. Só que dessa vez você deverá ter se dado o dever de abrigá-los da mesma forma - senão melhor - do que era antes, pra que não haja distinção. Dentre o grupo, tem sempre aquela(s) pessoa(s) que nem fazem falta enquanto não são lembradas mas, quando o são, parece que metade do tempo da Terra passou e que aquelas lembranças oram todos os dias pra que o futuro se ajeite e fique tudo em paz. Mas aí o futuro já é seu presente, porque já se passou muito tempo. Presente que você dá a si mesmo.
domingo, 14 de novembro de 2010
do sufoco
Nossa, estranho a campainha tocando a essa hora. Se não fosse você, jamais teria atendido! E então, o que houve? Uma história? Ou uma estória? Claro, claro, deixe-me buscar café, preciso acordar. Sente-se, porfavor. Você já é de casa, não precisa fazer cerimônia! Essa é uma das minhas prediletas:
Queria casar com ela! Se possível, morar junto antes de casar. Havia perdido ela uma vez em sua juventude, em meados de 1998. Namoraram apenas 3 semanas, como pode? Mas tudo tem uma explicação sim: ela ia se mudar pra longe, ia atrás d'um sonho que ele não compartilhava. Pior: ia se mudar em pouco tempo. De que adiantava começar o namoro e deixar o tempo aumentar o apego pra quando da partida a dor ser maior? Mas ele também não queria ficar no vai-e-vem. Se fosse dizer a ela o real motivo de não querer mais estar ao seu lado, ela ia continuar ao seu lado. Ele só tinha uma coisa a fazer: ela deveria deixar de gostar dele! Santa coragem! Foi aí que ele começou a falhar. Não ligava mais, deixava de responder as mensagens e decidiu aproveitar o pouco tempo oficial pra não querer conhecer o pai dela. Não passou mais de 10 dias assim pra que ela tomasse o início da conversa. Até que acabaram indo cada um pro seu lado. Porém, amizade mais bonita não poderia existir. O problema foi como ele ficou se sentindo depois que ela foi embora, sabe? O sentimento de culpa por não ter feito dar certo foi tão grande que ele jamais conseguiu esquecer essa dívida com ela e, consequentemente, jamais a esqueceu, de fato. Ela dava um jeito de se comunicar com ele, via carta mesmo, daquelas que a gente bota no correio. Receber uma carta dela era tudo pra ele, e toda vez que sabia que ela ia passar pela cidade, o coração ficava aos pulos! No natal ela sempre vinha antes do dia 24 de Dezembro. Só que pra ele visita no natal acontecia assim que sabia a hora exata do desembarque dela, mesmo que o natal não fosse naquele dia e que o desembarque fosse daqui a seis meses. Esperava por ela como nunca tinha esperado por ninguém. E o mais interessante, deveras, era que ambos podiam se relacionar com outras pessoas, porque era como se, no fim, eles fossem ter o tempo que não tiveram outrora, pra fazer valer tudo o que um havia prometido ao outro e que não puderam cumprir.
Queria casar com ela! Se possível, morar junto antes de casar. Havia perdido ela uma vez em sua juventude, em meados de 1998. Namoraram apenas 3 semanas, como pode? Mas tudo tem uma explicação sim: ela ia se mudar pra longe, ia atrás d'um sonho que ele não compartilhava. Pior: ia se mudar em pouco tempo. De que adiantava começar o namoro e deixar o tempo aumentar o apego pra quando da partida a dor ser maior? Mas ele também não queria ficar no vai-e-vem. Se fosse dizer a ela o real motivo de não querer mais estar ao seu lado, ela ia continuar ao seu lado. Ele só tinha uma coisa a fazer: ela deveria deixar de gostar dele! Santa coragem! Foi aí que ele começou a falhar. Não ligava mais, deixava de responder as mensagens e decidiu aproveitar o pouco tempo oficial pra não querer conhecer o pai dela. Não passou mais de 10 dias assim pra que ela tomasse o início da conversa. Até que acabaram indo cada um pro seu lado. Porém, amizade mais bonita não poderia existir. O problema foi como ele ficou se sentindo depois que ela foi embora, sabe? O sentimento de culpa por não ter feito dar certo foi tão grande que ele jamais conseguiu esquecer essa dívida com ela e, consequentemente, jamais a esqueceu, de fato. Ela dava um jeito de se comunicar com ele, via carta mesmo, daquelas que a gente bota no correio. Receber uma carta dela era tudo pra ele, e toda vez que sabia que ela ia passar pela cidade, o coração ficava aos pulos! No natal ela sempre vinha antes do dia 24 de Dezembro. Só que pra ele visita no natal acontecia assim que sabia a hora exata do desembarque dela, mesmo que o natal não fosse naquele dia e que o desembarque fosse daqui a seis meses. Esperava por ela como nunca tinha esperado por ninguém. E o mais interessante, deveras, era que ambos podiam se relacionar com outras pessoas, porque era como se, no fim, eles fossem ter o tempo que não tiveram outrora, pra fazer valer tudo o que um havia prometido ao outro e que não puderam cumprir.
sábado, 23 de outubro de 2010
da história pequena
- Gosta de mim?
- Gosto sim.
- E por que não me liga nem liga pra mim?
- As coisas que não existem são mais bonitas.
- Gosto sim.
- E por que não me liga nem liga pra mim?
- As coisas que não existem são mais bonitas.
sábado, 16 de outubro de 2010
do coração sem sala
Não, não. Não foi bem desse jeito que ocorreu. Era de uma vida bagunçada, como aqueles quartos que cada um tem e que é uma bagunça, mas sabemos exatamente onde cada coisa se encontra. Difícil mesmo é querer encontrar, organizar e botar pra fora o que não serve mais. Mas era de uma beleza tão natural que chegava a inspirar paz. Não paz de guerra, mas paz de espírito. Tinha a pele alva como nuvem e um sorriso que se entregava a qualquer bobagem que ele dizia. Começaram a discutir problemas leves e coisas da vida. De fato, era como se um estivesse começando a consertar a vida do outro, começando por coisas pequeeeeenas, como um problema no computador ou uma dúvida de matéria escolar. Mas se falavam apenas de vez em quando, quando a vontade de alimentar alguma coisa que morava dentro de cada um falava mais alto do que a vontade de ficar quietinho pra não se machucar. A vontade de ficar quietinho era mais a cara dela. Ali dentro havia um lar muito bagunçado, que impedia o vento de trazer boas notícias por muitas vezes. Mas carregava no olhar uma incrível vontade de ser feliz! De todas as vontades que ela tinha - fato - essa era a que mais queria tomar conta de todo o resto, pra poder converter passado em presente e o próprio presente num presente que ela dava a si mesma. Só que às vezes vinha uma vontade do medo da ilusão que ferrava com tudo. Sorte que o tamanho só influenciava na estatura, porque por dentro ela era gigante.
Ele era daqueles que já tinha tido muitas vontades: vontade do mar, vontade do nada, vontade de tudo, vontade do vento... Tinha mesmo um histórico meio perturbado por conta dessas vontades. Já tinha transformado coração em lar de uma forma incrível, e dos mais aconchegantes. Só que sempre vinha alguém e saía sem fechar a porta, deixando o vento frio do inverno invadir a casa e tornar o ambiente triste. Só que a vontade do tempo transformou a vontade do medo em várias vontades novas. Porém, de todas elas, a vontade que ele tinha agora que mais vinha à tona era uma vontade dela.
Ele era daqueles que já tinha tido muitas vontades: vontade do mar, vontade do nada, vontade de tudo, vontade do vento... Tinha mesmo um histórico meio perturbado por conta dessas vontades. Já tinha transformado coração em lar de uma forma incrível, e dos mais aconchegantes. Só que sempre vinha alguém e saía sem fechar a porta, deixando o vento frio do inverno invadir a casa e tornar o ambiente triste. Só que a vontade do tempo transformou a vontade do medo em várias vontades novas. Porém, de todas elas, a vontade que ele tinha agora que mais vinha à tona era uma vontade dela.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
do nada
...e descobriu o xampu que tinha o cheiro dos cabelos dela. Não que ele quisesse encontrá-la novamente, até porque na vida dele talvez nem houvesse mais espaço pra ela. Eles eram daquelas amizades floridas, onde um conforta o outro como cobertor em noite de inverno. Mas ele era muito temperamental, meu Deus! Na verdade, temperamento era qualidade. O defeito era a tempestade que ele trazia no olhar toda vez que não gostava de algo. Claro que ela, por mais que gostasse dele, não ia suportar ver seu barco naufragar toda vez que o mar de olhos verdes resolvesse lançar sobre ele algumas nuvens cinzas, sons de trovoadas e ondas de não-flores. Chega uma hora que todo mundo cansa, não é, meu jovem? Acho até que você está cansado de ficar sempre na mesma posição ouvindo-me. Vou abrir a janela pra que o vento faça seu mensageiro funcionar. Pra evitar o tédio refiz a estrutura da poltrona pra que ela se incline. Assim está bom? Ótimo! Mas não vale dormir enquanto eu falo. Como já é tarde no tempo do seu mundo, vamos logo começar a história do coração sem sala. Foi assim...
sábado, 4 de setembro de 2010
do menino que voava (mini-parte I)
Era interessante ver como ela se comportava quando ele estava por perto: quase sólido o não-movimento da sua boca. Era de uma intriga inefável, de um gorjear audível no mais profundo silêncio da alma. Mas ela queria ele que não queria ela, era quase como se um descompletasse o outro. Entretanto, como todo começo, tudo começou de uma forma inesperada. Eles trocaram olhares numa noite fodida qualquer em um bar de quinta categoria. Foi quase que automático. As sextas-feiras na cidade em que viviam eram tediosas. O máximo era quando ocorria uma festa ou algo parecido, caso contrário, teria sempre um ou dois botecos para salvar a noite. Ele pediu gym seco naquele dia. Nunca tinha tomado gym, até descobrir que tinha cheiro de perfume. Ela gostava de bebidas quentes e rápidas, então pediu uma tequila. Ela, bonita em sua pele alva, bebia sozinha. Não um beber conjugado por qualquer pessoa que pede algo com álcool, mas um beber desesperado, como que quem bebe para afogar não as mágoas, mas a alma.
- Traga uma tequila também!
- Mas você não já está bebendo gym?
- E você não já está bebendo tequila?
- Zoé.
- João. E então, o porque da bebida solitária?
- Uma garota não pode sair e tomar uma sozinha?
- Não, porque sempre vai ter um cara também sozinho que vai pedir a mesma bebida que ela pra puxar assunto, mesmo que ele já esteja bebendo outra coisa.
- Traga uma tequila também!
- Mas você não já está bebendo gym?
- E você não já está bebendo tequila?
- Zoé.
- João. E então, o porque da bebida solitária?
- Uma garota não pode sair e tomar uma sozinha?
- Não, porque sempre vai ter um cara também sozinho que vai pedir a mesma bebida que ela pra puxar assunto, mesmo que ele já esteja bebendo outra coisa.
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