terça-feira, 27 de julho de 2010

casinho

Se estiver incômodo na poltrona, pode falar. Mas voltemos ao outro tópico, já é mais de uma hora da madrugada e as palavras fluem melhor depois que o mundo se cala. É claro que sempre as pessoas vão sair e entrar na sua vida, deixando marcas inimagináveis! Imagine como se ambas fossem um pedaço de papel. Se colados, quando se separam sempre fica um pouquinho de cada no outro. É quase uma sentença de morte, não acha? Deixar-se colar dessa forma com uma pessoa que às vezes você nem conhece na íntegra e, então, entregar parte de seu espírito a ela. É uma atitude bonita até. Mas isso é um assunto muito discutido e eu odeio conversar sobre coisas normais. Claro, claro, pode inclinar melhor a poltrona. Era do meu avô, ele gostava muito dela. Está mais frio do que antes, portanto trate logo de abrir esse cobertor e se agasalhar!
O engraçado é que as pessoas sempre se deixam marcar. Bem, vou contar uma historieta agora. Tenho-a decorada apenas, desconsidere qualquer erro de roteiro. Lá vai:

A estranha borboleta que tinha aparecido agora pousava na pétala do roseiral que ficava na varanda. O céu estava estrelado e ventava levemente. O cheiro da brisa do mar havia ficado mais forte por conta do aumento da maré. Era lua cheia. A borboleta voava aparentemente sem destino. A rua estava movimentada, era noite de sábado. A prostitutas na esquina paravam os carros com suas pernas nuas, os quiosques da praia estavam cheios e alguns casais namoravam à grande luz da lua. Um vendedor passava anunciando o preço dos côcos enquanto a polícia fazia sua ronda rotineira. Quem passasse por aquela rua poderia ver o menino na varanda, observando toda a cena. A casa era uma das maiores da vizinhança, e a varanda ficava um pouco acima da cerca elétrica, que encobria os velhos muros de pedra que davam um ar de castelo à fachada da casa. Ele chorava. Observou a borboleta por algum tempo, suas asas calmas que mais lhe pareciam um rosto lhe fitando, olho-no-olho. Asas douradas. Muito diferentes para as borboletas - ou mariposas - com que ele estava acostumado. Normalmente, ainda mais nessa época do ano, as 'borboletas' que ele via eram raquíticas e pequenas, daquelas comuns em campos abertos. Não havia ninguém em casa. Seus pais haviam viajado. Filho único, tinha poucos amigos, daqueles de universidade que se acha perdidos por aí. O vento secou a água do seu rosto, deixando apenas duas linhas de sal, como que duas tatuagens quase imperceptíveis, não fosse o cheiro do seu sal se misturando com o cheiro de todo o sal do oceano. Nem ele sabia porque chorava tanto. Seus olhos castanhos agora estavam vermelhos, como o mar quando fica com raiva. As cortinas atrás de si balançavam a poeira do seu quarto sujo e faziam sombras como vultos. Regrediu e fechou as janelas, trancando o mundo do lado de fora, sem querer saber dos casais, do homem do côco, da polícia, dos quiosques, das prostitutas... Não sentia fome havia dois dias, apenas bebia água e comia uma ou duas frutas ao correr das longas 24 horas que agora lhe apareciam. Nunca havia parado para pensar quão longo é um dia, ou quanto tempo se perde não vivendo. A angústia já nem lhe tocava tão forte, sua mãe chegaria no dia seguinte e tudo estaria bem, completo. Era sua melhor amiga, sempre o fora. O cansaço de um dia de cicatrizes agora batia forte. Não estava com saco nem para ir no BOB's tomar seu ovomaltine de todo sábado. Ao som de 'Down em mim', do barão vermelho, ele deitou e dormiu...

14 comentários:

  1. gostei..bem interessante...gostei da sua narrativa!

    www.vauneiguimaraes.blogspot.com/

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  2. Bem legal, isso do papel é verdade. É impossível se relacionar com uma pessoa sem absorver um pouco dela.

    Abraço! ;)

    http://anpulheta.blogspot.com

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  3. Gostei da forma que escreve.
    Textos muito bons.

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  4. Isso de ficar com algo de outra pessoa me lemnbrou "Something in the way" do Nirvana.
    Creio que somos algo no caminho das pessoas.
    E como o moço ali disse, realmente é impossível passar por uma pessoa sem ficarmos com algo dela e deixarmos algo pra ela.
    Sim, tá frio.
    Ainda sinto a falta de vinho nessa casa.
    Eu entendo o menino da janela. Os sensíveis costumam chorar mesmo sem saber o motivo. Fuga da realidade.
    Bjos.

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  5. Por acaso encontrei seu Blog no orkut, cara! curti pra caramba, muito massa a maneira que vc escreve, parabéns!

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  6. Obrigado, Rodrigo!
    B, no próximo post teremos vinho, prometo!

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  7. UAU
    fiquei sem o que comentar de tão bom ! :o
    parabens

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  8. Nossa man. UAU!
    A do papel foi bem dahroa, é quase mesma do papel amassado...
    de fato, não adianta, sempre teremos um pouquinho da pessoa que se foi.

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  9. de volta por aki...abç!

    http://vauneiguimaraes.blogspot.com/

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  10. Adorei essa coisa do papel, realmente é uma comparação digníssima

    Apartir da história, comecei a pensar em uma coisa:
    Muitos de nós almejamos a solidão, mas não temos ideía de como ela pode ser cruciante, o menino na varanda representa bem isso...
    Queria ter entendido o que significa a borboleta, mas a televisão ligada aqui não me deixou ler direito

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  11. A solidão é dolorida, mas ficar com pessoas durante todo o tempo, também não é legal.


    :)

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  12. Pior do que estar sozinho é não estar :D

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